quinta-feira, 20 de março de 2025

VIAGEM NO TEMPO A 1901 NA BAIXA DO BONFIM (CONTO)

 



 

VIAGEM NO TEMPO A 1901 NA BAIXA DO BONFIM

(CONTO)

JOSENILTON KAJ MADRAGOA



 

A SURPRESA

 

Há alguns dias eu vi na internet uma fotografia da chamada colina sagrada do Bonfim, datada de 1901 — ou seja, de cento e vinte e cinco anos atrás —, em que apareciam um chafariz e algumas pessoas junto a ele. Fiquei surpreso. Eu não sabia que tivesse existido tal fonte de água nesse bairro tradicional da península de Itapagipe, em Salvador, na Bahia.

Como morador antigo do bairro, salvei logo a surpreendente preciosidade, para mostrá-la a familiares e amigos da península.

Um compadre meu, morador do Estaleiro do Bonfim, trecho populoso do bairro, escritor e professor de História aposentado, ao analisar o achado, levantou a hipótese de que as pessoas ali fotografadas talvez tivessem sido ex-escravizadas libertadas pelo 13 de maio.

Concordei. Na imagem só havia negros adultos, já demonstrando os sinais da maturidade. A Lei Áurea havia sido promulgada apenas treze anos antes. Por sua vez, a Lei do Ventre Livre passou a viger em 1871. Logo, a ilação historicista do compadre parecia ter razão de ser.

Num dos fins de tarde seguintes, levei três dos meus netos para se divertirem no parquinho da Baixa do Bonfim, aos pés da colina, para onde eu também já levara meus filhos e onde eu mesmo brincara na meninice, há mais de cinquenta anos.

Enquanto a “netaiada” exercia seu mister, fiquei folheando livros na banca de um livreiro de sebo que trabalha sob o velho ponto de bondes ainda existente na Baixa. Aproveitando, mostrei-lhe a foto no celular, perguntando-lhe se ele já a tinha visto em algum dos livros que mercadeja. Ele disse que não, mas ficou também admirado, varrendo com os olhos todo o entorno e questionando em que parte do sopé da colina ficara o exibido chafariz. Pela foto, não dava para saber.

Nisso, meu compadre chegou. Foi aquela alegria. Sempre proseamos muito nos fins de tarde, sentados ali num dos bancos do largo, juntamente com outros amigos de longa data.

Ele ainda me flagrou com a foto aberta.

— É uma pena que não haja um livro aqui mostrando essa imagem — lamentei. — Seria muito bom sabermos mais sobre ela.

Então o compadre pegou um dos livros seminovos da exposição e me provocou:

— Mas há este livro aqui, talvez interessante para você, que é chegado ao tema do sonambulismo e do êxtase. De repente, você pode fazer uma viagem espiritual no tempo, até 1901, olhar o chafariz nos olhos — não como papel ou imagem eletrônica, mas como presença real — e voltar para nos detalhar o que tiver visto. — E deu uma boa risada.

Era o livro Viagens Astrais e Seus Desdobramentos, de Otacílio Vergueiro. Eu o peguei e folheei com alguma avidez. Não o conhecia.

— Uma ideia brilhante, compadre! — exclamei.

O alfarrabista logo aproveitou:

— E está na promoção!

Paguei imediatamente. Custou uma pechincha.

E relatei:

— De fato, desde a infância eu tenho projeções de sonambulismo e êxtase. Dotações herdadas do meu pai, que apenas narrava para mim as “viagens” que fazia durante o sono, mas não sabia explicar nada teórico a respeito. Quando, na adolescência, comecei a experienciar os mesmos deslocamentos, fiz alguns estudos superficiais a respeito e aprendi logo o básico de ambos os fenômenos.

O livreiro perguntou, curioso, sobre o significado dos nomes.

Esclareci por alto:

— O sonambulismo espiritual ocorre quando a alma se encontra parcialmente separada do corpo, permitindo ao sonâmbulo acessar conhecimentos e clarividência além dos sentidos físicos. Já o êxtase é a condição em que a independência da alma em relação ao corpo se manifesta de maneira ainda mais plena, elevando o indivíduo à contemplação de um mundo espiritual superior.

— São temas, então, ligados à Doutrina dos Espíritos? — arguiu o livreiro, com sagacidade. — Acho que já vi esses nomes em um livro de Kardec aqui.

Aumentei o zoom:

— Bem, várias fontes de saber tratam desses fenômenos, com nomenclaturas diferentes; mas, antes de tudo, eles são temas ligados à realidade dos mundos paralelos — material e espiritual — em que vivemos. Acredito eu que, num futuro não muito distante, quem sabe daqui a uns dez anos, lá para 2036, eles serão estudados pela Física Quântica — ou por uma física que, enfim, aceite a alma como realidade quântica.

Um dos meus netos chegou e cortou a conversa, avisando da hora da pipoca.


 

 

SINCRONIA

 

Na manhã seguinte, eu estava sem fazer nada, como de costume de aposentado, quando decidi perambular até o pé da colina sagrada, em busca de algum vestígio do antigo chafariz. Que nada! Se ficara, deve ter sido soterrado com a reforma havida em toda a área em 1990, que, inclusive, pareceu ter inclinado mais a colina. Voltei para casa e comecei a ler o livro comprado no dia anterior.

Pelo índice, fui logo ao capítulo que trata de viagens astrais para lugares vistos em fotografias. Eu não sabia dessa possibilidade. Mas não era ainda o que eu queria. Minha vontade mesmo era sonambular ou me extasiar para o passado ou para o futuro, ainda que sem me afastar muito de casa. Isso eu ainda não tinha feito, mas sabia que era possível, por informes teóricos.

Procurei esquecer o assunto, mas parece que o assunto não me esqueceu. À tarde do mesmo dia, peguei um ônibus, só para gastar o direito à gratuidade recém-adquirida pela idade. De repente, perto do Largo dos Mares, entrou um passageiro vestindo uma camisa de malha, em que havia nas costas a seguinte inscrição: INSTITUTO HOLÍSTICO DE FÍSICA QUÂNTICA. Achei muito curioso.

Aproximei-me dele e o abordei, indo direto ao ponto:

— Boa tarde, amigo! Porventura esse instituto estampado em sua camisa lida com viagens astrais e também no tempo — para o passado e para o futuro?

Ele me olhou curioso, de cima abaixo, e respondeu no ato:

— Sim, amigo, começamos esses estudos há pouco tempo. Até fizemos recentemente alguns experimentos com o que a gente chama de cronotransporte, até vinte anos adiante, aportando nas instalações do nosso próprio instituto e vendo os participantes bem mais velhos.

Eu me animei. Apresentamo-nos. E eu quis logo tirar a dúvida principal:

— Viagem ou projeção astral, tudo bem. Eu mesmo faço isso de vez em quando; mas como é possível a projeção no tempo? Isso existe mesmo? Eu tenho desejado ver um fato já acontecido no passado — mais precisamente em 1901…

Ele respondeu sem pestanejar:

— Bem, falarei no plano meramente teórico. Para explicar a viabilidade dessa cronoviagem, mesmo mantendo o cordão fluídico conectado ao seu corpo no tempo de origem, temos de entender princípios da física quântica espiritual e o básico de algumas tecnologias avançadas. Em primeiro lugar, a física quântica espiritual postula que o tempo não é linear e rígido, mas, sim, uma dimensão maleável, influenciada pela consciência e energia. Assim como o espaço pode ser distorcido pela gravidade, o tempo pode ser “dobrado” ou “percorrido” por manipulação energética. A existência de realidades paralelas já é bem aceita nas comunidades científicas mais vanguardistas. A viagem no tempo não visa simplesmente uma alteração do passado tridimensional; ela é uma “mudança de trilho” para uma realidade paralela com o passado tridimensional — um continuum espaço-tempo paralelo daquele passado. Em momentos de grande significado histórico, essas realidades passadas convergem no nível espiritual, facilitando o acesso e até a comunicação.

— Sim, mas… e o cordão fluídico?

— Na projeção temporal, o cordão fluídico sobe e depois dobra para um lado — o do passado —, ou para o outro — o lado do futuro. — E riu. — Em verdade, o cordão fluídico faz também a conexão quântica. Ele não é apenas um elo eletromagnético: é também um canal de comunicação quântica. Ele mantém o corpo físico e o perispírito em ressonância, garantindo a integridade da consciência durante a superposição corpo-espírito.

— Mas como o cordão fluídico consegue se elastecer no tempo?

— A tecnologia de “cronotransporte” é capaz de estender a elasticidade temporal do cordão fluídico, permitindo que ele se alongue através das dimensões temporais sem se romper. Essa extensão é possível por meio de campos de energia especializados que “ancoram” o cordão em pontos específicos do tempo.

— Então essa espécie de cronoprojeção não afeta a saúde nem causa a morte do projetado?

— O cordão fluídico transmite informações cruciais contínuas sobre o estado do corpo físico no presente para o perispírito, esteja ele em que tempo estiver. Isso permite que a equipe de apoio espiritual monitore a saúde do cronoprojetado e garanta seu retorno seguro. Efetivamente, há intervenção espiritual dando suporte, guias espirituais. Espíritos especializados e sensitivos atuam como coordenadores. Alguns acompanham o cronoviajor na missão; outros ficam junto de seu corpo físico, fazendo sustentações energéticas. Eles não apenas protegem os viajantes, mas também coordenam as energias e garantem que a missão seja cumprida sem causar danos ao continuum espaço-tempo. Muitas vezes, encontros sincronizados já acontecem antecipadamente, como parte preparatória da missão. É tudo orquestrado por multiversos mais elevados. Normalmente, a sincronicidade — tão bem teorizada por Carl Jung — é uma manifestação da intervenção espiritual para propósitos nobres.

Certamente aquele nosso encontro foi sincronizado. Alguém queria mesmo que eu avançasse no mérito. Então, com entusiasmo, contei para ele das minhas conversas recentes sobre o tema e mostrei-lhe a foto do chafariz. Ele gostou de vê-la e me pediu para enviá-la a ele, passando logo seu contato, o qual salvei imediatamente.

Mas aí ele me desanimou um pouco:

— Bem, é possível, sim, viajar para o lugar visto numa fotografia — inclusive para o lugar de uma fotografia antiga, o que até já foi feito um tempo atrás. Porém, as vibrações e tempestades eletromagnéticas planetárias atuais têm impedido experiências em tal nível. Quando sairmos desse túnel de tumultos energéticos generalizados no planeta, muito certamente daqui a uns dez anos, isso será possível novamente, talvez até com mais recursos e sofisticações, face aos avanços e novas descobertas da Física Quântica.

Aderaldo, esse era o nome dele, percebeu que essa informação foi como um balde de água fria na minha animação meio amadora. Tanto que completou, tentando me reentusiasmar:

— Mas viagens curtas — como até uns vinte anos para a frente ou para trás — temos podido fazer sem maiores dificuldades, embora não para lugares de fotos. Caso lhe interesse estudar e fazer essa experiência em nosso instituto…

— Com certeza, aceito! Já me considero um cronoviajante! — e ri, mais leve.

Ele também riu e disse que já iria saltar. Acertei de telefonar-lhe para pegar o endereço do instituto e agendar uma visita o mais brevemente possível.


 

 

OS PREPARATIVOS PARA A INESPERADA VIAGEM

 

O ônibus era circular. Quando consegui um assento livre, sentei-me e tratei logo de mandar a foto para Aderaldo e ligar para meu compadre, a fim de lhe contar as novidades. Ele também se animou e até disse que iria formular perguntas de fatos históricos para eu fazer lá atrás e lá na frente do tempo.

— Serei seu cronorrepórter — disse-lhe brincando. Mas acrescentei sério: — Em verdade, eu não sei ainda como será — e se haverá — da minha parte algum poder de intervenção em fatos já acontecidos e a acontecer. Isso é discussão antiga entre teóricos do assunto viagem no tempo. Mesmo uma pergunta que eu faça a alguém no passado ou no futuro, e a resposta desse alguém, já será uma alteração de fatos do além-presente dele. E aí?

— De fatos e talvez de fotos também, não é mesmo? — falou rindo o compadre.

— Com certeza! — concordei, mesmo sem base teórica, pelo menos no momento.

Em casa, reabri o livro e o li por inteiro na noite daquele mesmo dia, extasiado pelas novas perspectivas de estudos e experimentações. Fui dormir de madrugada.

Acordei cedo, com o toque de ligação de Aderaldo.

— Bom dia, Olavo! — saudou-me aceleradamente.

— Bom dia, amigo Aderaldo! Qual é o comando?

— Você já tomou seu café da manhã? — ele perguntou um tanto preocupado.

— Não, ainda não — respondi, estranhando a pergunta.

— Ontem à noite, após a reunião no nosso instituto, conversei com o Sr. Deolindo, nosso coordenador, sobre você e seu projeto. Ele achou muito interessante. Mais tarde, durante meu sono corporal, tive novo contato com ele, espiritualmente. E desta vez ele me trouxe uma novidade que pode lhe interessar. Seguinte: dois pontos, direto. Ele disse que hoje, às 13h, vai partir uma excursão de estudiosos da Cristologia rumo às margens do Mar da Galileia, próximo a Cafarnaum, no ano 30, para assistirem pessoalmente ao Sermão do Monte. Só que eles vão zarpar do ano 2032 — quando, a propósito, já será possível fazer viagens a destinos temporais bem mais distantes do que atualmente, por causa dos avanços tecnoquânticos da época. E é aí que você, caso queira, pode entrar.

— Como assim? — indaguei, confuso.

— Bem, sua meta é chegar a um dia específico de 1901, certo?

Confirmei.

— Pois é. Ele disse que há uma chance de você fazer esse deslocamento para o início do século passado, hoje! Você poderá pegar a mesma nave, juntamente com os demais estudiosos, saltando, contudo, em 1901, no mesmo dia da foto, o mais próximo possível da Baixa do Bonfim. Depois de hoje, outra chance dessas poderá demorar bastante tempo. Ainda não é todo dia que parte nave do futuro próximo pelo tempo passado afora.

— Mas eu preciso de tempo para pesquisar o dia exato em que foi tirada a foto…

— Não esquente com isso. Ontem eu também mandei a foto para nosso coordenador, que já providenciou saber o dia exato em que ela foi tirada, com a ajuda de um sensitivo do nosso instituto.

— Nossa! E qual foi mesmo o dia?

— Foi o dia 6 de outubro de 1901, por volta das 8h20min da manhã.

— Quanta precisão!

— E então? É pegar ou largar!

— Preciso somente das instruções de voo, comandante! — respondi firme e resoluto. Mas emendei: — Em verdade, agora eu fiquei empolgado foi para ver o próprio Jesus nessa outra colina sagrada, onde ele fez o seu famoso sermão! Será que eu não poderia acompanhar esses estudiosos até lá também?

Aderaldo refutou em sorrisos:

— Não! Entre uma colina e outra, fique na sua — a que você já conhece — e não troque o chão pela miragem. — E justificou: — Esses estudiosos vêm se preparando para essa longuíssima viagem há mais de dois anos! São muitos requisitos a observar: mental, fisiológico, emocional, cognitivo, moral etc. Quem sabe no futuro — ou melhor, no seu futuro…

— Tudo bem — concordei, já desempolgado. — Como devo me preparar agora para voltar para aqui mesmo cento e vinte e cinco anos atrás?

— Até você se deitar corporalmente para se levantar espiritualmente, só coma frutas doces e verduras leves — e pouco. Beba água e tome chás, se forem calmantes, querendo. A partir das 9 horas, desligue o celular. Meio-dia em ponto, coloque uma música instrumental suave e bem baixinha no seu quarto, escureça o ambiente, peça aos seus familiares para fazerem silêncio e não lhe chamarem até a noite, em hipótese nenhuma. Deite-se confortavelmente e aguarde. Logo em seguida se acercarão de você dois Espíritos, que vão lhe induzir o sono corporal e conduzir você perispiritualmente até a torre de abdução. Chegando lá, você será elevado por outros Espíritos. Estes lhe deixarão dentro da nave que lhe conduzirá até 2032, até uma estação cronoespacial acima do povoado de Zigurats, no interior do Mato Grosso do Sul. Lá, guiado por outros Espíritos, você fará a baldeação para a outra nave, a da excursão para perto do Mar da Galileia, ao ano 30, bem maior e equipada, que vai decolar pontualmente às 13h. Entendeu tudo?

— Meu celular grava toda conversa automaticamente. Reouvirei esse passo a passo várias vezes, para ser bem aprovado na admissão — rimos descontraidamente.


 

 

O EMBARQUE

 

Segui todo o roteiro de preparação. Até pensei em ligar para meu compadre antes das 9h, para pô-lo a par dos súbitos acontecimentos, mas acabei desistindo. No dia seguinte eu lhe contaria tudo.

Dei uma caminhada na praia do Estaleiro, ouvindo uma musiquinha, para relaxar. Na volta, tomei uma ducha bem caprichada e voltei para a Baixa do Bonfim, onde fiquei proseando trivialidades com o livreiro, por mais de uma hora, a fim de passar o tempo e diminuir a ansiedade. Até me deu uma vontadezinha de lhe segredar o que eu estava prestes a experienciar, mas me contive. Na despedida, apenas lhe disse, confiante, que no dia seguinte eu iria lhe dizer onde ficava exatamente o antigo chafariz no largo. Ele me perguntou como eu saberia. Fui firme:

— Segredo de Estado! — ri, dizendo-lhe até amanhã.

Meio-dia em ponto, fiquei de prontidão — ou melhor, bem deitado no meu quarto — à espera. Colaborei bastante no trabalho dos Espíritos que vieram me buscar. Já tenho prática de projeções astrais; não são bem a mesma coisa, mas ajudou no caso.

Subi pela torre de abdução perispiritual, adentrei a primeira nave e, uns dez minutos depois, saltei na estação cronoespacial acima do povoado de Zigurats. Logo fiz a baldeação para a gigante e surpreendente nave, que já aguardava de portas abertas, com todos os passageiros a bordo. Pela tomada panorâmica que fiz, parecia haver cerca de cem pessoas, entre encarnados e desencarnados.

Qual a visível diferença entre uns e outros? Os encarnados tinham seu cordão fluídico — ou, como diz a Bíblia, o cordão de prata — estendendo-se para fora do veículo, a partir da região da nuca no corpo perispiritual, ligados eletromagneticamente a seus corpos materiais. Já os desencarnados não tinham essa extensão: viviam inteiramente no plano espiritual.

Senti-me deslocado no ambiente. Eu não era nenhum estudioso da Cristologia, era só um carona, mas, enfim…

Uma espécie de comissária de bordo pediu-me para sentar numa confortável poltrona reclinada, entre dois desencarnados, que me saudaram alegremente — um deles até como se já me conhecesse de longas datas.

Perguntei-lhe, já me sentindo meio à vontade:

— Você me conhece de algum lugar?

Ele respondeu em tom bonachão:

— Em verdade, eu lhe conheço de algum tempo; ou melhor: conheço você desde sua primeira infância, quando você morava na Rua Barão de Cotegipe. Sou seu guia espiritual. — E estendeu-me a mão, sorrindo.

Apertei-lhe a mão entre surpreso e desconcertado, mas já começando a me sentir mais em casa.

— É uma grande satisfação poder finalmente lhe conhecer, meu irmão e amigo! Qual é mesmo seu nome, que eu sempre quis saber?

— Pode me chamar de Alter. E esse — apontou para o do outro lado — é Fribo. Ele é o guia espiritual da mulher que aparece na fotografia objeto da missão. Veio de 1901 até aqui — ou melhor, até agora — para nos ajudar no seu traslado.

Apertei a mão de Fribo, que deu um sorrisão bem amigável.

Mas eu foquei mesmo foi no meu guia. Eu tinha que aproveitar para tirar algumas dúvidas existenciais. Ele percebeu meu intento e cortou logo:

— Você deve ter muitas dúvidas a satisfazer sobre você mesmo, mas agora procure relaxar e se concentrar. Brevemente partiremos. Você tem alguma dúvida quanto à sua missão aqui?

— Bem, eu quero saber principalmente como funciona a mecânica de viagem no tempo e como funcionará essa viagem a um passado tão preciso e para o exato ambiente onde foi tirada a foto…

— Isso é assunto de uma física profunda, que ainda não tem terminações epistêmicas para se fazer entender em linguagem humana. É uma física que ainda será descoberta pelos cientistas da Crosta planetária, embora já seja assunto de rotina na dimensão espiritual terráquea da Arte, Cultura e Ciência.

— Só me digam então, na medida do possível, como eu vou chegar, juntamente com vocês, no ambiente e no momento da foto — a tempo de vê-la ser tirada, o que eu espero.

Alter passou a palavra para Fribo:

— O importante é o fim, não o meio. Basta dizer que estaremos lá no corpo semimaterial do perispírito. Não seremos vistos pelos encarnados do lugar e hora, nem interferiremos ostensivamente no futuro imediato daquele passado — pelo menos porque não é esse nosso objetivo na missão e também porque não teríamos esse poder intervencional todo.

— Gostei do resumo conclusivo — falei, sorrindo.

— Atente para o que Fribo disse — completou Alter. — Não interferiremos ostensivamente, isto é, materialmente; mas não iremos lá à toa, a passeio. Há um propósito auxiliativo, do qual você ficará sabendo oportunamente.

Uma voz de comando fez-se ouvir para todos a bordo:

— Atenção, passageiros! Faltam três minutos para a decolagem. Recostem-se em suas poltronas e relaxem. A viagem até o destino-tempo final durará três horas e vinte minutos. Haverá apenas uma parada intermediária, após dez minutos, para o desembarque de três passageiros que ficarão em 1901; de então, seguiremos direto até o final. Logo após a decolagem, sentiremos uma aparente turbulência, enquanto passarmos por um anel de luzes magnéticas, após o qual entraremos na estrada do tempo.

Senti um calafrio, mas tratei de me acalmar e observar tudo.


 

 

A APROXIMAÇÃO

 

Saltamos acima de Salvador exatamente dez minutos depois. Na saída, desejei aos prosseguintes uma feliz viagem. Confesso que estava com uma pontinha de inveja: eles iriam assistir ao Sermão do Monte de perto, vendo Jesus ao vivo. — Ah, se eu pudesse ir junto! — pensei.

Alter me olhou de testa franzida. Ele leu meu pensamento.

— Pois é — arguiu, sorrindo. — Quando você não mais tiver essas tais pontinhas de inveja, quem sabe não estará mais perto de participar de uma excursão dessa…

— Acho que ainda vai demorar bastante para minha preparação moral — reconheci.

Ao chegarmos sobre Salvador, notei que paramos em uma estação cronoespacial acima de Roma. Reconheci logo o bairro, porque havia na praça a antiga garagem da SMTC — que antes era a empresa de bondes municipais — e que eu conheci nos anos 60, na época de menino, quando ela já era empresa de ônibus elétricos, mas com a mesma fachada.

Fiquei sabendo que estávamos no dia 6 de outubro de 1901, no comecinho da manhã, e que logo chegaria uma cápsula de ajuste fino, na qual deveríamos embarcar para completar o trajeto temporal-espacial.

Não aguentei não questionar:

— Por que a nave principal não nos levou exatamente até o lugar e o tempo precisos?

— O princípio da incerteza tem de ser sempre considerado — explicou Fribo. — Planejamos e calculamos com a maior precisão possível onde e quando queremos atingir, mas há fatores alheios às nossas previsões e cálculos que frustram nossas expectativas, por mais próximo que acertemos em nível de probabilidade.

— Mas as naves cronoespaciais não estão tecnologicamente preparadas para atingir seus alvos temporais e espaciais com total eficácia? — ousei perguntar.

Fribo respondeu pacientemente:

— Efetivamente, as naves utilizadas no cronotransporte não são meros veículos físicos, mas dispositivos complexos que manipulam campos energéticos e dimensões — porém não de forma absoluta e plenipotenciária. As naves criam “bolhas de realidade” que protegem os viajantes das alterações temporais, tanto em deslocamentos no tempo negativo, para o passado, quanto no tempo positivo, para o futuro. São verdadeiros laboratórios voadores de condução ao passado paralelo ou ao futuro paralelo.

— E por que a nave principal teve de decolar de Zigurats, tão longe de Salvador?

— Estações como a de Zigurats servem como pontos de ancoragem e transferência entre diferentes linhas temporais, além de abastecerem as crononaves com indispensável energia taquiônica. Elas permitem que os crononautas ajustem sua frequência vibracional para se sintonizar com o tempo de destino. Porém, repetindo: sempre há fatores intercorrentes após a partida da nave que podem alterar o ponto de destino no tempo e no espaço. Por isso, contamos com o ajuste fino da cápsula para o atingimento do alvo específico.

Preferi nem questionar mais.

Deu-me vontade de correr até a esquina da Rua Barão de Cotegipe, próxima — e que eu conhecia bem, inclusive porque morara nela na primeira infância, na casa do meu avô paterno — para ver como ela era em 1901. Poderia até ver, quem sabe, meu avô brincando com amiguinhos no meio da rua. Mas fiquei só na vontade. Rapidamente Alter me encarou de testa franzida. Sorri para ele, dando-lhe a entender que eu tinha captado a advertência.

Então fiquei admirando a chegada de alguns bondes na garagem da SMTC. Eram impressionantes. Um pouco adiante, na praça de Roma, passavam transeuntes para lá e para cá: mulheres com vestidos longos, chapéus ornamentados e sombrinhas; homens de chapéu de feltro, terno de linho e sapato de couro. Havia encarnados, desencarnados e também alguns encarnados projetados, mas todos mantendo a mesma linha indumentária. Também passaram trabalhadores em trajes mais simples, alguns conduzindo burros de carga com barris de água e feixes de lenha. Senti falta da minha filmadora.

Alter questionou no ato:

— Se você pudesse ter trazido sua filmadora, será que poderia filmar estas paisagens aqui e agora e levá-las para o seu futuro?

— Eis a questão! Mas, enfim, eu poderia? — quis saber, curioso.

— Há tecnologia para isso, mas não disponível para todos — respondeu ele, franzindo a testa significativamente.

Eu ri e adiantei logo:

— Já entendi!

Eis que pousou à nossa frente uma cápsula circular, que mais parecia um pequeno disco voador, com aproximadamente cinco metros de diâmetro. Ao entrarmos, aproveitei para gracejar:

— Estou me sentindo um extraterrestre! — e dei uma fina gargalhada.

— Extraterrestres, não somos; mas você e Alter são extratemporais — ponderou Fribo. — Causariam o mesmo espanto aos encarnados deste espaço-tempo, se eles pudessem vê-los e saber de onde — ou melhor, de quando — vocês são nativos.

Um minuto depois da decolagem, o piloto pousou a cápsula e avisou que tínhamos chegado exatamente ao nosso espaço-tempo destinado, com adiantamento de duas horas. Interessante que foi um deslocamento sem turbulência e sem anel de luz.

A mininave aterrissou bem atrás do ponto de bondes da Baixa do Bonfim.

Antes de saltarmos, o piloto nos deu as coordenadas para nosso retorno:

— Estarei de volta às 9h, exatamente aqui, atrás deste ponto, trazendo dois cientistas do ano de 2049, que farão para vocês a cronomutação para 2026, de modo que não precisarão mais se deslocar no espaço. Fribo ficará aqui mesmo, porque já está em sua casa-tempo. — E partiu imediatamente.

Questionei, procurando entender:

— Por que não houve somente a tal cronomutação para eu e Alter virmos direto de 2026 para 1901, pois é aqui que nós já estávamos, apenas 125 anos adiante?

Fribo esclareceu:

— O motivo de não ter havido cronomutação direta de 2026 para 1901 foi, sobretudo, para preservação da sua integridade física, mental e emocional. Sem contar que essa empreitada somente é possível por especialistas de 2049 em diante, e eles não estão sempre disponíveis para experiências que, para eles, são menos relevantes. Com a evolução das naves de cronoviagem e da física quântica espiritual, cientistas de 2049 já possuem a capacidade de “cronomutar” a frequência vibracional dos viajantes, alinhando-os com seu tempo original. Essa tecnologia manipula o cordão fluídico em nível subatômico, garantindo um retorno seguro e sem paradoxos. A cronomutação é complexa e delicada; requer alinhamento preciso com coordenadas espaço-temporais e demanda manipulação das fímbrias fluídicas de encarnados projetados. Envolve redemoinhos moleculares, mentais e emocionais, com dispêndio de múltiplas energias, o que não seria seguro intentar duas vezes no mesmo dia. A vinda a 1901 via 2032 foi uma estratégia mais protetiva para você, Olavo.


 

 

A CHEGADA

 

Estava diante de nós a Baixa do Bonfim no dia 6 de outubro de 1901. Eram 6h20min da manhã.

Pedi logo para ver o chafariz. Fomos os três. Ele se erguia a uns cinquenta metros adiante e à direita do ponto de bondes, ainda no plano, mas a uns dez metros da colina. Era uma fonte imponente — como um altar de água — cercada com um gradil de ferro. Vários aguadeiros enchiam barris para carregar burros de prontidão; mulheres enchiam suas latas.

Ao chegarmos ao portão, um idoso desencarnado, posicionado como um guarda do lugar, dirigiu-nos a palavra, percebendo nosso interesse:

— Bom dia! Vi que os senhores não são daqui, não, né? Vieram por esse chafariz, foi?

Alter abriu a boca para falar, mas de repente olhou para mim, como a dizer “o interesse é seu; então, fale.”

— Sim, amigo! — tomei a frente. — Viemos principalmente por causa desse chafariz, mas também para conhecer a paisagem e as pessoas que frequentam este ambiente. O senhor sabe quando ele foi construído?

— Este chafariz de ferro fundido já está aqui há muito tempo. Começou a ser construído em 1860, pela Companhia do Queimado, e foi inaugurado em 1861. As peças vieram da França. Ele fornece água e também luz. Olhem o lampião em cima da coluna central…

Toda a construção tinha estilo de candelabro, com um lampião no topo.

— Inicialmente a água era paga, e eu era um dos cobradores: ficava sentado nesse quiosque de madeira atrás do chafariz, recebendo as patacas e dando uma ficha, que era recolhida por um colega aqui na porta do chafariz.

Lembrei-me de que na foto era visível mesmo uma casinha de madeira atrás e à direita da fonte.

Ele continuou:

— Mas anos depois passou a ser de graça. Hoje, depois que eu morri, dou plantão aqui só como vigia mesmo, contra sujadores da escuridão.

Olhando para Fribo, destacou:

— Esse rapagão aqui, eu conheço de vista. Está sempre por aqui. É o anjo conselheiro de Joana, que vem pegar água aqui no chafariz todo dia, não é mesmo? — Olhando para Alter: — O senhor também já é desencarnado e deve vir de um lugar muito bonito, pela sua aura brilhante. — E olhando para mim: — E o senhor, que é o único encarnado aqui, vem de onde?

Não tínhamos previsto tais reconhecimentos. Então me saí com essa:

— Vim de Zigurats, um povoado de Mato Grosso do Sul.


 

 

REVELANDO UM FATO DA FOTO

 

Toda a área da colina parecia um bosque urbano planejado. Havia muitas árvores frondosas até próximo do ponto de bondes. Um muro com portão circundava os limites da praça, para minha estranheza.

Fribo pediu licença ao vigia para nos afastarmos um pouco. Fomos para o ponto de bondes ver alguns deles pararem para pegar e soltar passageiros. Eram ainda a vapor.

Perguntei, curioso:

— Ainda não havia — ou melhor, ainda não há — bondes elétricos na cidade?

— Em verdade — esclareceu Fribo —, já há alguns bondes elétricos circulando, em fase de experiência. Daqui a algum tempo, só haverá deles. Mas agora eu quero falar é de Joana, a minha tutelada, que é aquela da foto com a lata d’água na cabeça. Ela é a razão assistencial da nossa vinda aqui.

— Sim — quis entender melhor —, por que você, que é o guia espiritual dela, ainda não me esclareceu qual é o papel dela nessa foto, para mim já misteriosa, e dela na nossa vinda aqui?

Alter foi quem explicou:

— É interessante primeiro você fixar o seguinte: há uma sequência de fatos já ocorridos no passado, outra sequência ocorrendo no presente, e outra a ocorrer no futuro. Todos os fatos, em suas sequências, estão interligados como fios de um mesmo tear. O simples fato de sabermos de algo relevante já altera a nossa psique, que, por sua vez, pode alterar toda uma sequência passada, presente ou futura com nossas ondas mentais e emocionais. Por isso, a importância da revelação dos fatos a acontecer cada um a seu tempo certo. Não somos só observadores: somos também interventores-contribuidores para a ocorrência de certos fatos essenciais dentro dos feixes de algoritmos existenciais e interexistenciais, obedecendo sempre à lei de causa e efeito, mesmo nas pré-ações de retrocausalidade em tempo já passado tridimensionalmente, sem paradoxidade.

O simples bater das asas de uma borboleta pode provocar um tufão do outro lado do mundo cem anos depois. Todo fato é fruto de um nexo de causalidade que se protraiu no tempo anterior até gerar o fato sob observação, embora possa haver alterações, interrupções ou até anulações de fatos que estavam para acontecer, mas não aconteceram — ou que estão já plasmados para acontecer, ou até já estão acontecendo no futuro, mas não acontecerão, ou deixarão de acontecer no espaço tridimensional do presente ou mesmo do passado. A árvore genealógica algorítmica de fatos não cresce uniformemente, de forma harmoniosa e frondosa. Muitas podações, galhos novos distorcidos e até abduções de galhos e folhas costumam surgir para dar completude à árvore do jeito que ela deve frutificar: feia, às vezes, para um fim pequeno; bela, para outro fim maior. Está tudo sob o controle do Jardineiro Universal. Nada ocorre por acaso. O que é casual em uma realidade é causal em outra. Até os cabelos da nossa cabeça — mesmo os fios que ainda vão nascer no passado, ou os que já tinham nascido no futuro — estão contados.

— E se, com o uso, desuso ou abuso do nosso livre-arbítrio, nós contribuirmos para a criação, anulação ou alteração de um fato fora do script algorítmico cósmico? — eu quis filosofar.

— Deus, o Algoritmista Supremo, tem infinitos meios — simples e complexos, isolados ou conjuntos, simultâneos ou sucessivos — de fazer cumprir suas vontades. Ele conta com a nossa colaboração de boa vontade; mas, se não interviermos ou não agirmos corretamente, ou seja, conforme a vontade Dele, poderemos alterar um fato condicional importantíssimo, até onde for permitido pelo Grande Analista, e até causar um estrago enorme nalguma sequência — inclusive nalguma já passada — e isso pode somar com outras e até alterar o curso da história, mas até certo ponto: ou porque Deus redecidiu sobre o fluxo ou refluxo do que deve acontecer, ou porque algo maior e mais decisivo estava para acontecer fora do seu script. O que fazemos de má vontade contra os planos de Deus pode implicar uma volta bem mais oblíqua para que retomemos a mesma sequência evolutiva atrasada. Mas esse rearranjamento de fatos é sempre um aprendizado para todos nós. Seja como for, mesmo os fatos repercutentes imprevistos em um nível dimensional são previstos — ou até provocados — em um nível de realidade paralela superior, inferior, anterior ou posterior. Muitas vezes, a destruição de um feixe de algoritmos fáticos em um nível menor é até preparatória para a construção de um feixe de algoritmos em um nível maior, em favor da incidência ou da continuidade de aplicação das leis divinas e naturais multidimensionais e universais. Entendeu?

Fui honesto:

— Só entendi uma coisa: que devo ficar calado! — e ri, como quem fecha a boca para não abrir um abismo.

Olhando para Fribo, Alter pediu:

— Pode revelar agora a Joana da foto?

Fribo apontou para a Rua Travasso de Fora (nome atual, em 2026), onde dobravam os bondes e onde hoje dobram os ônibus para a Ribeira.

— Joana mora naquela rua ali, hoje chamada de Rua do Bonfim, na casa de um casal de velhinhos, onde ela nasceu em 1862 e onde cresceu como escrava doméstica. Atualmente, ela tem 39 anos — e já é quase uma idosa, considerando os padrões de longevidade deste início do século XX.

Perguntei rapidamente:

— Por acaso eu, se dobrar bastante a atenção, posso provocar uma intervenção perigosa nalguma sequência de fatos anteriores, em curso ou posteriores a esse seu fato narrativo?

— Não, desde que a sua dobra de atenção seja apenas mental, não emocional — explicou Alter.

— Isso mesmo! — continuou Fribo. — Basta que já houve na vida — ou melhor, nas vidas — de Joana várias quebras e desvios de sequência dela contra outros e de outros contra ela, bem como contra as leis divinas e naturais. Isso ocorre praticamente com todos nós. Também jogamos com e às vezes contra Deus. Somos deuses — isto é, temos o livre-arbítrio com poderes, ainda que relativos e limitados, de criar, alterar e destruir. Isso força mudanças de itinerário, de plano e de programação a todo momento. Nós, criaturas, pomos, com o nosso livre-arbítrio, e Deus, o Criador Supremo, dispõe, com as suas leis regulatórias e redirecionadoras, sempre boas e justas, mesmo quando contrariam nossos quereres e nos causam sofrimentos. Ele roteiriza para nós novos cursos de ações e reações sequenciais retificadores e reajustadores — entre parênteses, entre colchetes e entre chaves — nas expressões numéricas existenciais que estamos obrigados a resolver a vida inteira, ou até mesmo entre vidas inteiras. — Olhou para Alter. — Quer enxertar algum raciocínio completivo?

Alter aduziu:

— Mas Deus, o Algoritmista Supremo, em sua onisciência, onipresença e onipotência, intervém em nossas vidas a todo instante, para ajustar nossos caminhos — às vezes antes mesmo de gerarmos algum fato destrutivo, afastativo ou atrasativo da nossa própria marcha sequencial evolutiva já programada para ocorrência, por exemplo, na terceira dimensão material. Isso porque, embora já esteja consumado muitas vezes na dimensão plasmática futura, esse fato, ainda a acontecer no presente, mas já identificado, pelo Alto, como desastrosa consequência para a harmonia do todo evolucional do infrator ainda sem infração no presente tridimensional.

— E pode ser o caso agora de Joana — emendou Fribo.

Tripliquei a atenção.

— Joana, até agora, teve uma existência muito sofrida — prosseguiu seu anjo da guarda. — Apesar de tudo, ela é uma boa alma e vive resignadamente. Mas, de vez em quando, têm-lhe assediado sentimentos muito negativos contra seus senhores, o que se intensificou após a abolição. O 13 de maio não mudou muito suas condições sobrevivenciais. Precisou continuar morando na mesma casa e realizando as mesmas tarefas, mas sem nunca receber qualquer remuneração — nem mesmo um agrado financeiro. Só alimentação e um quartinho para dormir. Vive em condições análogas à escravidão.

Porém, no geral — tirantes alguns imprevistos —, sua programação existencial está sendo cumprida até então. Ela tem gradualmente expiado suas dívidas pré-existenciais, inclusive em relação a seus senhores. Mas seus sentimentos negativos e até desejos intermitentes de vingança podem derrocar tudo e pôr sua vida quitatória atual a perder. Podem até protrair seus acertos de conta por muitas existências adiante, a depender dos fatos intercorrentes que ela realize agora, apesar das minhas constantes tentativas de influência em contrário.


 

 

O FOTÓGRAFO E SUA BROWNIE-KODAK

 

Nesse momento, parou um bonde, do qual desceram vários passageiros, dentre os quais um baixinho de meia-idade, todo vestido de branco: terno impecável, gravata de seda, sapatos de couro no estilo Oxford e chapéu de feltro — tudo branco. Costume da época.  Mas o que mais chamou a atenção foi uma câmera fotográfica portátil pendurada ao pescoço.

Foi a deixa para Fribo interromper suas revelações e anunciar:

— Bem, amigos! Esse é o fotógrafo que vai tirar a famosa foto do chafariz da Baixa do Bonfim. Vamos prestar atenção aos próximos acontecimentos.

— Já existe câmera fotográfica portátil em 1901? — eu quis saber.

— Sim — respondeu Alter. — Existe uma câmera popular e de preço acessível, da marca Brownie-Kodak, lançada justamente neste ano de 1901. E é a desse baixinho aí. — apontou, rindo.

Aproximei-me bem da máquina, para identificar-lhe os detalhes. Era uma caixa retangular simples, coberta em material texturizado preto, provavelmente couro ou algo similar. A lente ficava em um orifício centralizado na frente da câmera; havia outros pequenos orifícios e controles visíveis na frente e nas laterais, usados para ajustar configurações ou operar o aparelho. A parte superior apresentava uma alça de couro presa com acessórios de metal.

Aquele homem com sua câmera chamou a atenção dos circundantes encarnados e desencarnados. Formou-se uma roda de curiosos em torno dele, o que costumava acontecer, à época, diante de figuras estranhas ao lugar e de objetos desconhecidos.

Eram 7h50min. O homem começou a tirar algumas fotografias, como quem pesca instantes — intuído por um Espírito, que Alter afirmou ser o guia espiritual dele. Os curiosos, aos poucos, foram se dispersando para irem pegar suas águas.


 

 

TIRANDO A FOTOGRAFIA

 

Às 8h05min, Joana chegou. Alta, magra, postura ereta — espinha de lança, alma de pedra antiga —, imponente, com um semblante sereno. Entrou na fila da água. Havia umas dez pessoas na frente dela, todas negras. Fiquei observando com um olhar historicista. Pensei: a maioria dessas pessoas aí vem do tempo da escravidão, que terminou somente há treze anos. São testemunhas sem ata, arquivos sem papel. Calados, já estão contando e fazendo a história.

Nesse momento, Alter me pediu para entrar em oração contributiva para a paz e o sucesso do que iria acontecer em seguida. Atendi de imediato.

Chegando a sua vez, Joana encheu a sua lata. Em seguida, abaixou-se e pôs o vasilhame na cabeça. Quando se afastou alguns passos do chafariz, o fotógrafo a abordou rapidamente e perguntou se poderia tirar uma foto dela. Ela olhou para ele, meio assustada, e quis saber:

— Por que o senhor quer tirar uma fotografia de mim?

— Por nada! — respondeu rapidamente o retratista, meio encabulado. — Bem, não exatamente por nada… É que a senhora tem uma presença… uma dignidade… que me chamou a atenção. E a maneira como suspendeu a lata d’água e a colocou na cabeça, com tanta elegância… Enfim…

Joana redarguiu, desconfiada:

— Dignidade? Elegância? O senhor está a zombar de mim? Já ouvi muito desaforo por aí.

O fotógrafo levantou as mãos, em sinal de paz:

— De forma alguma! Juro que não! A senhora me ofende com essa suspeita. Sou um homem de bem, um artista… e vejo beleza onde outros talvez não vejam. Acredite: não tenho intenção de zombar da senhora.

Joana franziu a testa:

— Artista, é? E o que o senhor faria com a minha imagem? Iria mostrar para quem? E por quê?

O fotógrafo aproximou-se um pouco, com cautela, mantendo uma distância respeitosa:

— Veja bem: minha intenção é simples — eternizar um momento, uma pessoa… A senhora representa, para mim, a força e a resistência deste povo. Essa foto poderia ser exibida, quem sabe, em uma exposição, ou publicada em um jornal ou livro de história do futuro… um registro importante deste dia a dia de pessoas fortes.

Nisso, Fribo começou a sussurrar para Joana, tentando intuir-lhe respostas.

Joana pôs as mãos na cintura:

— Exposição? Jornal? Pra quê? O que eu ganharia com isso?

O fotógrafo, intuído por seu próprio guia espiritual, pensou rápido:

— Bem, em primeiro lugar, a garantia de que sua história será contada, de que sua imagem será lembrada. Em segundo lugar… — tirou uma pequena moeda de um bolso. — Posso lhe oferecer uma pequena quantia como agradecimento pelo seu tempo e pela sua permissão. Não é muito, mas é o que posso fazer.

Joana olhou para a moeda, com desconfiança:

— Dinheiro? Não preciso da sua caridade.

O fotógrafo guardou a moeda:

— Não é caridade, senhora. É um pagamento pela sua colaboração artística. E, se me permite, gostaria de lhe oferecer uma cópia da fotografia depois, para que a senhora tenha uma recordação.

Joana mostrou-se pensativa:

— Uma recordação? Pra quê, meu senhor? Já tenho tantas na minha cabeça.

Ante a resposta já um tanto mais calma dela, o fotógrafo se fortaleceu:

— Para mostrar para seus filhos, seus netos, a posteridade… Para que eles saibam quem a senhora é, de onde veio, o quanto a senhora é importante. Para que se orgulhem da sua história.

Joana olhou para a câmera, depois para o rosto do fotógrafo.

— Minha história… é uma história de dor, de sofrimento. Não sei se quero que seja lembrada.

O fotógrafo contra-argumentou com delicadeza:

— Mas também é uma história de força, de superação. Todos os pretos que chegaram até aqui depois do 13 de maio são fatos históricos vivos que devem ser valorizados. A senhora certamente faz parte de uma história que precisa ser contada. E, se me permitir, eu gostaria de ajudar a contá-la — pelo menos em uma fotografia. Prometo que a tratarei com o máximo de respeito e dignidade. Prometo que a senhora se sentirá orgulhosa com o resultado. Quanto ao seu sofrimento, ele está mais na sua maneira de ver a vida do que nele mesmo, não que eu queira romantizar a sua situação. Mas guarde isso na memória: a dor faz parte de todos nós; o sofrimento depende de como cada um interpreta a sua dor.

Após um silêncio, Joana suspirou, convencida:

— Está bem. Mas peço que o senhor seja rápido. Não tenho muito tempo a perder. E quero ver o retrato depois.

O fotógrafo deu um largo sorriso:

— A senhora não vai se arrepender! Agradeço imensamente a sua confiança. — Ajustou a câmera. — Relaxe, fique natural. Olhe para a frente, como se estivesse olhando para um futuro melhor.

O fotógrafo preparou a Brownie, fez alguns ajustes e finalmente disparou o obturador. O sol já forte, batendo de frente, ajudou a iluminar o rosto de Joana. Dos detalhes que pude lembrar, o cenário da foto foi exatamente o que eu vi em 2026, inclusive com as mesmas pessoas próximas da mulher. Só que, em face da momentânea dupla vista interdimensional privilegiada, eu estava vendo muito mais pessoas na birrealidade do que o que foi para a imagem.

O fotógrafo exclamou:

— Perfeito! Absolutamente perfeito! A senhora é uma inspiração. Muito obrigado!

Joana falou, aliviada:

— Agora, com sua licença, preciso ir.

O fotógrafo entregou-lhe um pequeno pedaço de papel:

— Aqui está meu endereço. Vá me visitar daqui a um mês, mais ou menos, para pegar a sua cópia da fotografia. Será uma honra recebê-la.

Joana pegou o papel, hesitante:

— Veremos. — e seguiu seu caminho, deixando o fotógrafo radiante com o sucesso da empreitada.

Fiquei a meia distância admirando a troca de abraços entre Alter, Fribo e o guia espiritual do fotógrafo. Achei muito bonito o encontro fraternal dos três protetores.

Em seguida, Fribo veio em minha direção, para o último esclarecimento:

— Não alteramos os fatos relevantes já acontecidos; ao contrário, criamos fatos contributivos para garantir o acontecimento dos fatos relevantes que tiveram de acontecer mesmo no futuro do passado dela — porque são fatos que criam, descriam e alteram o curso da história individual ou coletiva. Mas o principal fato relevante que aconteceu aqui não foi o ato da fotografia.

Perguntei, já curioso:

— Que outro fato mais relevante aconteceu aqui além do “fotografamento” de Joana?

Quem se apresentou para iniciar a resposta foi Alter:

— Às vezes, as circunstâncias — ou melhor, os fatos circunstanciais que servem como chamariz para a ocorrência de outros fatos realmente significativos — são tão importantes quanto os próprios fatos por eles gerados. A lei de causa e efeito muitas vezes aciona ações de pré-causa e também ações de pós-efeito. Certas causas já são efeitos e certos efeitos já são causas. — Apontou para si e para mim. — As nossas intervenções gerativas de causas, ou de fatos causais, ou de retrocausalidade, não foram diretas; foram apenas mentais, a partir do nosso foco concentrativo na direção dos dialogadores Joana e o fotógrafo. — E olhou para Fribo, como a pedir: “continue”.

E Fribo avançou no mérito:

— No caso aqui e agora, nossa missão não foi alterar diretamente a história de Joana, ou seja, a sua chave existencial, mas contribuir para que ela a conclua com êxito e bom proveito, no seu futuro próximo, que representa o seu colchete emocional não resolvido, para sua evolução espiritual como um todo.  Ultimamente, em face das grandes injustiças sofridas e acumuladas nas suas condições de trabalho análogas à escravidão, ela vem nutrindo ideias negativas, algumas até suicidas, intuídas, inclusive, por Espíritos obsessores implacáveis. Por isso viemos para ajudá-la a fazer uma alteração de fato — não de fato fático, mas de um fato psíquico —, para evitar a ocorrência de fatos fáticos destrutivos, que podem até destruir toda a sua árvore genealógica algorítmica, já plasmaticamente frondosa e bonita no jardim do seu futuro.

Além disso, há a questão da “internalização do opressor”. Anos sendo tratada como propriedade, ouvindo que é inferior e incapaz, fizeram com que ela acreditasse nessas mentiras. A voz do opressor transformou-se na voz dela mesma, minando qualquer iniciativa de mudança.

E não podemos esquecer do “trauma complexo”. Joana não sofreu apenas um único evento traumático, mas uma série continuada de abusos ao longo do tempo. Isso aniquilou-lhe a capacidade de processar emoções positivas, de costurar narrativas coerentes sobre o que lhe aconteceu. Ela ficou presa em um ciclo de flashbacks, ansiedade e depressão, que lhe tem impedido de tomar decisões racionais.

— É por isso que ela simplesmente não saiu da casa e foi embora? — eu quis saber.

Com tom calmo e compreensivo, Fribo explicou:

— Ah, meu amigo, a mente humana é um labirinto intrincado, especialmente após tanto tempo de trauma continuado. Não podemos simplificar a situação de Joana como uma mera questão de “simplesmente ir-se embora”. A ligação entre Joana e seus senhores é por raízes profundas e pré-existenciais. Imagine a mente de Joana como uma planta que cresceu retorcida, agarrada às paredes vibracionais da casa onde nasceu e se criou. Uma vida de opressão — vontade anulada, autoestima esmagada — criou nela o que se chama de “síndrome de Estocolmo”, porém em nível profundo. E então ela internalizou a ideia de não ser capaz de sobreviver fora daquele ambiente, mesmo ele sendo abusivo. A liberdade, por incrível que pareça, fez-se algo assustador: desconhecido, mais ameaçador do que a própria dor que ela já conhece. É porque, inconscientemente, ela sabe que a liberdade primeira que deve almejar é a de suas dívidas com o passado, que já estão quase todas quitadas. Ela já pode ir-se embora a qualquer momento, se quiser.

A psicologia mostra que a escravidão e a exploração prolongada criam laços perversos, dependências emocionais profundas — mas que, como todo erro comportamental humano, resultam de ligações relacionais corretivas da vida presente ou de vidas passadas. No caso, é um absurdo Joana ter nascido e crescido na mesma casa de seus senhores algozes e não ter querido ainda ir-se embora, mesmo gozando de lucidez e poder de escolha. E se eu lhe disser que, em existência passada, ela morreu nessa mesma casa, tendo sido à época a sinhá que maltratava seus escravos — entre os quais estavam seus dois atuais senhores?

— Então Deus também cria o mal na vida de pessoas, como corretivo de suas maldades passadas? — ousei perguntar.

— Não necessariamente. Não há determinismo nesse sentido. Mais importante do que a correção é a evolução, que pode se dar pela prática consciente ou inconsciente das virtudes crísticas, inclusive o perdão e o amor. Mesmo que se nasça em um ambiente potencialmente corretivo de pecados pregressos, há sempre um caminho alternativo de amor e bondade que se pode preferir trilhar — e que é disponibilizado para todos nós.

Somando tudo isso, vemos que a mente de Joana está em uma espécie de prisão emocional. As correntes não são físicas, mas psíquicas. Ela precisa de um adjutório estratégico para romper esses laços doentios, reconstruir a autoestima, reaprender a confiar em si própria e no mundo. Ela precisa de um 13 de maio íntimo, para entender, inicialmente, que não importa o que fizeram com ela, mas importa o que ela faz com ela mesma a partir — ou independentemente — do que fizeram com ela.

E foi para isso que fomos convocados: para ajudá-la a repensar sua visão de vida. A fotografia e o diálogo motivacional com o retratista, nesse contexto, foram um pequeno passo — um fósforo aceso no escuro — que pôde reacender a chama da esperança e da autoconfiança, mostrando a ela que é digna de ser vista, valorizada, livre. As palavras otimizadoras que ela ouviu do fotógrafo — por sua vez intuído por seu próprio guia espiritual — criaram um cenário revolucionário na mente de Joana, que nunca ouvira nada positivo sobre si. Ela agora está voltando para casa outra pessoa — mais confiante —, pronta não para se mudar de casa, mas antes para se mudar interiormente. Eu, como guia espiritual dela, vou complementar intuitivamente a terapia autocognitiva necessária, para que ela liberte a alma desse jugo psicológico entristecedor da existência. Ela já está madura, no ponto da grande autolibertação.


 

 

O RETORNO

 

Fribo deu uma última olhada sorridente para mim e para Alter e disse, em tom de cumprimento:

— Bom retorno para 2026! Fico por agora.

E então seguiu na mesma direção de Joana, para dar continuidade à missão intuicional.

Alter apontou para o céu, indicando que a cápsula de resgate estava chegando. Apressei o passo, admirando pela última vez aquele ambiente urbano histórico. Olhei uma última vez para o chafariz e dei um adeus ao vigia, que nos olhava admirado. Ele respondeu acenando a mão, sorrindo.

Já na cápsula, saudamos os dois cientistas do ano de 2049, que vieram fazer a nossa cronoviagem de volta para 2026. Antes da partida, comentei com Alter sobre a beleza e o significado de tudo o que presenciamos, agradecendo-lhe a oportunidade. Ele, com seu ar mentorial de sempre, apenas respondeu:

— As ações do bem, meu amigo — mesmo as pequenas e até as aparentemente insignificantes — geram ondas que reverberam por várias dimensões de tempo e de espaço, porque estão interligadas, inclusive com outras já passadas e com outras futuras, formando uma malha algorítmica de luz.

O piloto pediu-nos para relaxar e fechar os olhos. Obedeci incontinenti. Uns cinco segundos depois, pediu que abríssemos os olhos. Tínhamos chegado. Senti apenas uma chacoalhada vibracional, porém rápida.

Fui o primeiro a saltar da mininave e, quando quis me despedir de Alter, já não o vi mais. Mas eu sabia que ele estava por ali — apenas em outra subdimensão ou na parte invisível da terceira dimensão.

De volta para o futuro — ou melhor, para o meu presente —, dormi quase a tarde inteira e, ao acordar, cuidei logo de ir à Baixa do Bonfim para ver o lugar exato onde outrora havia o chafariz. Chegando lá, sentei-me num banco fixado bem no lugar do poste, ao que parece. Fiquei ali pensando, repassando na mente as cenas vividas na experiência de teletransporte, até ser surpreendido por uma jovem que se sentou no extremo do mesmo banco. Uma ruiva bem vestida. Uma turista? Não poderia ser. Sozinha?

Encorajei-me e indaguei-lhe:

— Veio admirar a colina?

— Vim pagar uma promessa na igreja e resolvi parar um pouco aqui antes de chamar o carro de aplicativo. Gosto deste lugar. Sinto uma certa afinidade, uma paz, como se eu já tivesse vivido nestas redondezas muito tempo atrás.

Olhei mais detidamente para ela, ainda que de forma discreta, tentando montar uma equação, fazer uma ligação fática… Talvez ponderações a trabalhar em outra circunstância. Só disse:

— Quem sabe?

E sorrimos.

No dia seguinte, procurei meu compadre e o sebista. Contei-lhes tudo, tim-tim por tim-tim. O sebista ficou boquiaberto e meu compadre, com um brilho nos olhos, começou a tomar notas para um novo livro, certamente baseado naquela minha experiência. Sorrindo, o sebista disse que queria exemplares no ponto de venda dele, que estava, afinal, no mesmo cenário da história.

A foto do antigo chafariz da Baixa do Bonfim, que me impulsionou àquela inesquecível viagem no tempo, hoje tem um significado muito maior. Nela, não vejo apenas um chafariz e pessoas pegando água. Vejo a história de Joana, a força da resiliência, a descoberta de novos caminhos da libertação íntima, a beleza reconstrutiva da dignidade humana.

Vendo essa foto, reconheço que somos todos loucos, quando julgamos tudo com base apenas na aparência do que vemos, tocamos ou ouvimos pelos sentidos do corpo material. Todos sofremos de micropsia, ou síndrome de Alice no País das Maravilhas, quando percebemos e julgamos como real apenas a pequena terceira dimensão da multirrealidade. Concluí que, se pelo menos todos nós tivéssemos uma dupla vista da birrealidade da própria terceira dimensão crostal em que vivemos, com certeza teríamos uma vida muito mais justa e, consequentemente, mais autêntica.

Pedi ao compadre que não deixasse de reproduzir, em seu livro a escrever, a fotografia motivadora de todo o causo. Ele assentiu de pronto, propondo-me ser coautor do escrito. Aceitei.

E vós, distinto leitor, como se viu nessa amadora câmera historial? Como um leitor-coautor, completando imagens reflexivas com sua visão privilegiada de mundo? Ou como um leitor-personagem, sentindo-se também retratado em algum nível? Quer revelar?

 

FIM

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