quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

PEGADAS NO CÉU - CONTO SOCIAL

PEGADAS NO CÉU


Olavo da Penha Cazumbá


 


Era a primavera de 1969, auge do tempo de soltar arraias em Salvador.
Eu e Mindin estávamos só esperando o dia seguinte, domingo, quando mãe ia deixar a gente fazer pegada com a galera nas palafitas.
Mindin preparava o cerol. Moía pedacinhos de vidro para juntar com um resto de cola que mãe tinha comprado para consertar suas alpercatas de couro. Eu fixava bolotinhas de algodão sobre uma linha forte, para trocar a rabada do arraião que ele tinha agarrado no domingo anterior, depois de uma pegada sensacional com Budião, da ponte da Rua Nova Aurora.
De hora em hora, eu ia espiar pela janela o céu estrelado e a lua cheia que alumiavam a noite, como se estivessem dando um banho de leite em todo o casario de tábua dos Alagados.
Junto do candeeiro, Mindin se concentrava na cola e no vidro em pó.
Mirando um quadro de São José segurando o Menino Jesus, me deu na telha de perguntar (naquele tempo, na altura dos meus nove anos, eu tinha direito de perguntar isso):
- Irmão, será que o menino Jesus empina arraia lá no céu?
- Oxente! Que pergunta besta é essa, Zé? Cê é doido?! Com o menino Jesus não se brinca, não!
- Por que não? Ele não é menino?
- Mas ele não é menino igual a nós, não. Ele é o filho de Deus! Não joga arraia, nem brinca de nada. E mesmo assim, com quem ele iria fazer pegada lá no céu?
Pensei, pensei... Lembrei do recente noticiário sobre os astronautas que tinham subido até a lua no Apolo 11, e consegui argumentar:
- Mas, naquele dia, não foram aqueles homens americanos lá pra lua, no foguete? Quem sabe um deles?...
Nisso, mãe gritou lá da cama:
- Meninos, que converseiro é esse? Vão dormir! Eu tenho de acordar cedo pra ir trabalhar!
Não demos mais nenhum piu. Mãe não gostava de ralhar uma segunda vez. Fomos tratar imediatamente de dormir.
Mindin passou a tramela na porta e eu fui girar a da janela. Antes de fechar e apagar o candeeiro, dei uma última espiada no céu, e um lampejo me veio. Pensei: “Ah!... A lua... A lua é a arraia do menino Jesus!...” Ficou só para mim a conclusão-pensamento. E sorri de contente.

****

Ao sair de manhã cedo, mãe nos advertiu:
- Meninos, cuidado para não passarem da hora de almoçar. Não corram por cima das pontes.
E se dirigindo a Mindin: E Você não esqueça de esquentar a comida na hora certa, não, viu? Já está tudo pronto na panela de barro em riba do fogareiro.

Tempo de arraia nos Alagados era um deus nos acuda. As pontes ficavam infestadas de meninos e também de homens grandes empinando, correndo e concorrendo para ver quem fazia os melhores jogos e para ver quem cortava a linha ou arrastava primeiro a arraia de quem.
Eu e Mindin ficávamos histéricos. Mindin corria pra lá e pra cá, gritava fazendo seus jogos, e eu, sentado na porta do nosso barraco, só na gritaria, no incentivo. Eu era o fã número um dele.
Especialmente na tarde daquele domingo, as disputas prometiam muito.
Por volta de uma hora, ainda antes de começarem as primeiras pegadas, Mindin botou a comida para esquentar no fogareiro, mas não aguentamos esperar. Fomos logo soltar nossa arraia. Quer dizer, fomos, não. Mindin foi, porque eu fiquei só na torcida.

Eram cerca de duas horas da tarde. Apesar do sol a pino, o céu já fervilhava de arraias e periquitos. Mindin chegava a balançar a ponte de tanto correr eufórico, fazendo vários tipos de jogos ora para a esquerda, ora para a direita e também dando e puxando linha na hora certa. Impressionante. Ele conduzia sua arraia com muita destreza. Já tinha cortado duas arraias, uma delas “na mão”, como se dizia. Era um mestre. A arraia dele era toda branca com uma rabada enorme cheia de bolotinhas de algodão (minha participação, registre-se).
O jogo aéreo com a arraia de Liquidique, da ponte da Rua da Belamita, estava tinhoso. Um conhecia as manhas do outro. Já tinham mais de meia hora disputando a pegada. E eu, extasiado, empinava com os olhos e gritava incentivando meu irmão-ídolo.
- Dá linha, irmão! Dá linha!... Arrasta!... Arrêa!.. Corta! – E por aí afora.
Almoço? Que almoço que nada? Estávamos tão extasiados que nem sentíamos fome.
De hora em hora, passava na carreira uma penca de meninos por cima da nossa ponte, para tentar puxar pela linha, com longas varas ou barandões, alguma arraia partida, antes que caísse na maré, e cuidando para não caírem eles próprios.
Foi numa dessas correrias frenéticas que Mindin se desconcentrou e permitiu que Liquidique arrastasse a arraia dele “na mão”, depois de dar um “u” espetacular.
- Lá vai ela!!! – Gritou a galera quando viu a arraia de Mindin ser cortada cheia de linha e ir-se embora levada pelo vento.
Dali ninguém podia tentar ir atrás dela, por causa da sua grande altura. Certamente cairia bem longe na Baía de Todos os Santos. Ela tinha levado quase todo o carretel de linha.
Mindin ficou irado. Xingou, esbravejou, enquanto recolhia às pressas a pouca linha que tinha sobrado, antes que caísse na água.
Eu, ainda que triste, aproveitei a deixa:
- Irmão, não já tá na hora da gente comer, não?

Entramos. Meu irmão, esbaforido, danado da vida, brotando alto, batendo e chutando tudo pela frente, espumava pela boca de tanta raiva. Ele não queria perder na pegada para Liquidique. Não queria mesmo. Sem contar que ele já tinha quatorze anos e Liquidique só tinha dez. Foi um desaforo.
- Liquidique vai ver! Ele vai ver só, aquele fio do cabrunco! – vociferava retado da vida.
Mas a minha maior decepção veio em seguida. O feijão com chouriço, que mãe tinha deixado pra gente comer e que nós já tínhamos botado pra esquentar antes, havia se queimado!

Depois de uma “conferência” sobre o que devíamos fazer, eu suspendi uma tábua do assoalho e Mindin despejou todo o feijão da panela dentro da maré. Foi um banquete para o grande cardume de bobós e outros peixinhos miúdos, que se alastraram bem debaixo do barraco.
E a minha fome aumentou.
- Irmão, e agora? Eu tô com fome...
- O pior – disse Mindin - é que não temos mais nada pra comer. Esse feijão já tava na panela há uns três dias.
Tive a ideia de repetir uma experiência já conhecida.
- Vamos beber água. Ajuda.
- É... vamos beber água, - Mindin concordou. - Depois a gente dorme. Já fizemos isso outras vezes, quando não tinha nada, lembra? Dormir mata a fome...
Depois que esvaziamos a moringa, eu me deitei no tabuado e Mindin ficou sentado murmurando ainda alguma coisa.

****

Era noite cheia de estrelas. Mindin estava fazendo pegada, correndo para lá e para cá sobre a ponte estreita. Ele empinava uma arraia gigante, separada dele por um fio de prata, como se fosse sua mão longa. Tentava se alinhar com a lua para um desafio.
Eu, seu fã número um, como sempre, na torcida:
- Vai lá, irmão! Dá mais linha! A lua é longe!
A grande arraia branca dançava majestosamente no céu. Dava “us" espetaculares... E ele fazia as manobras e me olhava rindo, como se o show fosse para mim.
Aí eu vi um foguete gigante subir para o céu, e vi da sua janela de vidro a imagem de Liquidique mexendo a mão aberta para nós, como a nos dizer: “esperem aí!”. E o foguete subiu na direção da lua, deixando um longo rabo de fumaça branca...
Não demorou muito e, ante a euforia e os movimentos saltitantes de Mindin, que fazia seus jogos espetaculares com o arraião, a velha ponte de madeira, de repente, começou a se mexer. Eu gritei assustado:
- A ponte está balançando, irmão!
- A lua tá se mexendo, Zé! Não vê, não?!
Mindin estava descontrolado.
Agora, aflito, tive vontade de arrastar meu irmão para dentro do barraco, mas quando fiz menção de fazer isso, ele se desequilibrou e caiu da ponte em baixo. Não caiu dentro d’ água, mas, caiu dentro de um mar de cola, onde não conseguiu nem nadar. De cima da ponte, desesperado, estiquei uma vara para ele pegar, mas foi tarde. Ele foi rapidamente tragado pela cola.

Nisso, acordei todo azoado, coração pulsando forte. Levantei assustado e olhei para Mindin. Não sei se ele dormia, mas parecia não respirar. Da sua boca saía um vômito de cor verde. O frasco de cola estava aberto junto dele.
Fui na carreira até a casa de seu Agapito, que era enfermeiro, para pedir socorro. Há meses ele andava de mal com mãe, por questão de dívidas que ela tinha com ele, mas naquela hora ele se esqueceu de tudo e veio às pressas para ver o que estava acontecendo. Constatou que a vida de Mindin estava por um fio.

Depois disso, nunca mais brincamos de arraia. Mindin mudou de interesses. Passou a andar com outra galera, até quando foi arrastado para sempre do nosso convívio, praticamente “na mão”. Mas, ele continuou sendo meu ídolo... para sempre.

****

Quase dois anos depois, em outra noite de lua cheia, sentamos eu e mãe no tablado de acesso a nossa residência, para admirar o céu estrelado.
De repente chamei a atenção dela para um ponto luminoso cruzando o céu, parecendo uma estrela.
- Olha, mãe! O que é aquilo ali? Será que é o foguete Apolo 15, de que o rádio tem falado, indo para a lua?
Ela explicou:
- Não é, não, menino. Aquilo é o que a gente chama de estrela cadente. Na verdade, é um meteoro que se ilumina pela luz do sol, quando se aproxima da Terra.
- Hum!... – Fiz de conta que entendi, mas, logo, logo, um lampejo me veio. Pensei: “Estrela cadente... meteoro... Nada disso! Aquela é a arraia de Mindin. Ele foi cortado aqui da Terra, mas conseguiu fazer pegada lá no céu”.
E sorri de contente.


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