segunda-feira, 13 de abril de 2015

LUZES DA RIBALTA PALAFÍTICA - conto paradidático (para se pegar gosto pela leitura)

LUZES DA RIBALTA PALAFÍTICA

Olavo da Penha Cazumbá
(colaborador aqui na oficina)

Dia desses, viajando num ônibus coletivo da linha Vila Ruy Barbosa-Engenho Velho de Brotas, aqui em Salvador, eu encontrei meu compadre Amaral, professor de Língua Portuguesa e Literatura, que me contou um bom episódio da sua vida diária. Por achá-lo impressionante e de especial interesse para a juventude, resolvi escrevê-lo aqui, em linguagem mais ou menos arrumada. Vá desculpando aí a falta de estilo.

No final de 2013, Goa, minha vizinha de porta aqui no bairro da Ribeira, em Salvador, estava ralhando com o neto, Nininho, pré-adolescente, que não queria estudar sob as novas lâmpadas de LED do quarto dele, alegando que eram fracas, nem queria estudar na sala, alegando que as lâmpadas fluorescentes o incomodavam, nem queria estudar em qualquer outro lugar, porque, segundo ele, já estava acostumado a só estudar diante do notebook, que, por sua vez, estava com a bateria pifada.
Então, para tentar convencê-lo a pegar no livro, já que ele teria uma prova final no dia seguinte, chamei-o até minha porta, e contei-lhe como, numa certa época da minha infância, eu passei a fazer os deveres de casa com algum conforto visual.
Foi justamente no ano de 1976, quando eu morava nos Alagados. Eu estudava a quarta série do primeiro grau, pela manhã, na Escola Abílio César Borges, no bairro de Roma. Ao voltar para casa, almoçava e saía por várias ruas da península de Itapagipe vendendo cocadas feitas por minha mãe, isso até umas 4h. De novo em casa, ainda dava tempo de brincar com meus amigos, nadando na maré ou correndo para lá e para cá sobre a ponte onde morávamos.
Porém, quando chegava a boca da noite, a programação da gente mudava radicalmente. Nos espremíamos na janela do barraco de dona Olga e de mais uns dois ou três barracos que tinham aparelho de televisão nas palafitas da nossa ponte, a fim de assistirmos à novela Escrava Isaura.
Engraçado era que, quando ouvíamos ao longe a música de introdução da novela (“Lerê, Lerê, Lerê, Lerê, Lerê...”), rapaz, só se viam marmanjos, alguns até varapaus já barbudos, correndo para os chamados “televizinhos”, a fim de assistirem ao capítulo do dia. Aquela música soava como se fosse a grande chamada para o encerramento das vadiagens da tarde. Podia estar divertida como estivesse a brincadeira da vez, mas, quando escutávamos o refrão (“Vida de negro é difícil, é dificil como quê...”), pronto! Partíamos na carreira, ridicularmente, na direção das janelas iluminadas.
Como eu ainda era da turma dos menores, geralmente levava desvantagem no ombro a ombro frente à minha janela cativa (a do barraco de dona Olga), além de ter de ficar muito atento, para não cair dentro d’ água. O tablado era estreito e de tábuas velhas, tais qual toda a cinzenta arquitetura local.
Tinha dias em que a confusão era tão grande, que dona Olga expulsava todo mundo, e então haja peleja para tentarmos um novo espaço nas outras janelas! Rolavam empurrões e até tapas!
Em verdade, eu nem entendia tanto o enredo da novela, mesmo porque tinha dias em que mal dava para ver as imagens chuviscadas em preto e branco, principalmente quando linhas de arraias tinham mexido na antena, o que deixava dona Olga furiosa.
Ademais, o que eu mais estranhava mesmo era o fato de Isaura (vivida pela atriz Lucélia Santos) não ser negra, mas tudo bem. Acho que Dorival Caymmi é quem era mesmo o personagem principal, porque nos puxava de onde estivéssemos, para prender nossos olhos no enredo.
Bem, para fazer justiça à memória, tinha também a presença da atriz negra Léa Garcia e sua beleza impressionante, singular (apesar dela fazer papel de má). Confesso que eu ficava esperando mais as aparições dela do que as dos demais. De resto, era só bagunça e diversão.

A outra disputa de ombros começou já no final de 1976.
Quase nenhum barraco da nossa ponte tinha luz elétrica. Morávamos nas palafitas mais fechadas e cinza-escuras maré adentro, na chamada “maloca”. Os poucos barracos que usufruíam de eletricidade tinham puxado gatos de longe. Até então eu vivia estudando à noite ao pé do candeeiro, respirando fumaça, tossindo, lacrimejando, mas na determinação.
Foi quando Seu Genaro, dono de um mercadinho que ficava na extremidade oposta da nossa ponte, rente com a Rua da Muribeca, na época já aterrada, resolveu erguer um poste de luz junto de seu estabelecimento, por conta própria.
A partir de então, compadre, a corrida do ouro de fim de tarde, para mim e mais alguns, passou a ser para ver quem chegava primeiro junto ao poste de Seu Genaro, no crepúsculo, com seu livro, seu caderno e seu tamborete, a fim de estudar com algum conforto visual. A disputa ali já não era tão forte. Poucos eram dados aos livros a ponto de deixar de assistir ao mencionado teledrama de época.
Então, logo após tomar café, eu tinha de correr às pressas para o poste, em derredor do qual nos apertávamos, sentados, uns cinco ou seis moleques, principalmente em vésperas de provas, para fazer a lição de casa e para estudar. E, neste caso, a disputa, além de ser entre nós, era também com mariposas e cupins aleluias, que ficavam voando em torno da lâmpada até o pleno anoitecer, sem falar dos pernilongos sanguessugas.
Quando nos acomodávamos, após aquela dança das cadeiras da vida real, começávamos a estudar, livros e cadernos no colo, em silêncio, que só não era total, porque havia sempre um coro de grilos e sapos também exercendo suas funções à beira da maré ali perto.
Eu costumava ser o último a deixar o poste, porque depois de fazer o dever de casa, normalmente engrenava minhas leituras sem compromisso. Era quando os crepusculários também já tinham arribado, o que deixava a luz da lâmpada um pouco mais forte. Ficavam apenas alguns LEDs voadores (vagalumes) tentando contribuir intermitentemente pelos ares em volta. Grilos e sapos se calavam, e aí, compadre, haja viagem, haja aventura! Precisava minha mãe às vezes ir me buscar, o que ocorreu principalmente quando eu resolvi conhecer a verdadeira história étnica da Escrava Isaura, lendo o romance de Bernardo Guimarães, que serviu de mote para a telenovela de Gilberto Braga. Foi quando eu passei a perceber que os casos contados nos livros são bem mais interessantes e ricos de detalhes do que suas adaptações para a televisão. Aprendi que a imaginação motivada pelos livros impressos é mais educativa e construtiva para a formação do pensamento do que as imagens televisivas ou de qualquer outra mídia eletrônica. [E aprendi que a imaginação é a única realidade concreta que existe para nós, não é mesmo?]
Não precisei falar mais nada. Tive que estalar os dedos, para despertar o filho de Goa de uma, como que, hipnose. Ele pediu licença, deu boa noite e foi para sua casa, calado, mas com ares de determinação.
Eu, um noctívago inveterado, percebi que as luzes do quarto dele, já de madrugada, ainda estavam acesas.
Bem, compadre, ainda que não podendo relacionar nada com nada, o certo é que o rapazola passou de ano.

Eu ia comentar alguma coisa com o compadre, mas não deu tempo. Tinha chegado meu ponto, nas Sete Portas.
Porém, eu digo aqui para vosmicê: eu ainda sou um crepusculário de livros impressos luminescentes. Percebo neles mais detalhes da realidade que eles irradiam, do que nos livros lidos na tela do meu velho computador de mesa (que às vezes também me deixa furioso). A depender do título, quanto mais velho e carcomido pelo tempo for um bom livro, para mim, melhor. Será psicológico? É possível. Talvez seja por causa de uma imago que ainda teima em se irradiar da minha calejada memória.
Nos anos cinquenta, morando nas Palafitas, eu e outros meninos, em muitas noites, nos juntávamos no tablado em frente ao barraco da velha Voafra, para ouvir suas histórias que faziam o tempo parar. Ela ficava dentro de casa, mas na janela, que era alumiada por um lampião pendurado por um arame.
Ela e Fulô, a filha, tinham vindo do antigo quilombo de Olho D’ Água dos Negros, no sertão de Jeremoabo, fugidas de uma seca tirana, para morar sobre as águas da Enseada dos Tainheiros.
Embora com seus mais de noventa anos, ela nos contava, com muita vividez, as histórias de seu povo. Ainda sabia de cor quem era parente de quem, quem tinha nascido onde, quem tinha sido escravo... Ela mesma dizia que nunca tinha se assumido escrava, porque viera trazida da África em 1874, em um navio clandestino, quando ela ainda era uma menina, mas já sob a vigência da lei imperial que proibia o tráfico negreiro. Deixava claro, com suas próprias palavras, que sempre se considerou, portanto, uma sequestrada! E o Brasil todo era seu cativeiro.
E nos contava também muitas fábulas dos irmãos Grimm e de Andersen, que ela aprendera, juntamente com outros ávidos ouvintes, de caixeiros-viajantes que cruzavam o Sertão negro naqueles tempos lentos e analfabetos, como prévia da vendagem de miudezas.
Só uma tristeza ela dizia que ia levar para o túmulo: a de não ter aprendido a ler, quando ainda tinha a cabeça livre de avexamentos. É que no seu tempo de mocidade, negros não podiam frequentar escola. Depois, quando puderam, ela não quis mais. Disse que já tinha “empedrado o juízo”. Ficou só na vocação de transmitir suas histórias ágrafas.
Um dia, para animá-la um pouco, porque ela estava acamada, eu lhe perguntei se ela queria que eu lhe ensinasse a ler. Ela disse: “Não!” Mas os seus olhos brilharam. Foi a deixa para eu insistir de vez em quando, sempre que a visitei nos dias que se seguiram. Até que um dia ela, já falando com dificuldade, me contou (sendo que aqui eu vou lhe repassar em linguagem mais atual) e por fim pediu o seguinte:
O filho dela, Prudêncio, que, na infância, também tinha chegado a ouvir histórias dos caixeiros-viajantes, quando cresceu, casou-se e foi morar na cidade de Monte Santo, no início do século passado, deixando a mãe sozinha com a irmã (o pai tinha ido embora em 1892, para seguir Antonio Conselheiro).
Em Monte Santo, aprendeu, ele mesmo, a ler e também a contar histórias lendo, fazendo adaptações de improviso. Quando voltava para visitar a mãe, sempre levava livros e os lia, para o deleite dela e de Fulô, ao pé da fogueira, até altas horas. Ficou bom nisso. Passou a ser um caixeiro-viajante de histórias. Visitava feiras livres de várias cidades da região semiárida (Bom Conselho, Tucano, Nova Soure, Cipó, Ribeira do Pombal, Araci, Serrinha, entre outras). Profissionalizou um costume já existente desde o Segundo Império. Era serviço para a semana toda, na alternância programada das feiras. Sobre um tablado feito de caixotes de verduras, ele lia histórias e poesias para o povo humilde, estendendo o chapéu da contribuição. Era aplaudido, era ajudado. Não vendia nada material. Apenas imaginações. À noitinha, no fim de algumas feiras, ele se valia, como sua ribalta, do primeiro lampião a querosene que era acendido na praça pelo funcionário da prefeitura local, para terminar de ler algo de maior interesse do público.
E assim ele viveu por muitos anos, até que foi atingido pela gripe pandêmica de 1918. Morreu onde nasceu. Expirou sua última sílaba, justamente quando lia, ainda que bem devagar e tossindo, o conto “A Pequena Vendedora de Fósforos”, de Hans Christian Andersen. A mãe ainda ficou por alguns segundos segurando firmemente o lampião à beira da cama, entorpecida, como que aguardando o recomeço da leitura, até que assumiu a dura realidade, ao ver o livro aberto sobre o peito imóvel do filho.
Nesse ponto da sua lenta narrativa, ela olhou para mim, fixamente. Seus olhos brilharam. Eu até me assustei. Foi quando ela pediu a Fulô que pegasse um livro de dentro de um velho baú que havia no canto do barraco. Teve atendido de pronto o seu requerimento. Vendo o livro, pediu-me:
- Eu quero que você procure nesse livro a história da pequena vendedora de fósforos e leia ela para mim.
Era um velho exemplar de “Contos de Andersen”, amarelado pelo tempo, com muitas folhas soltas e perfuradas por traças historicidas. Notei que o português era diferente, porém fácil de entender. Localizei o conto e comecei a lê-lo em voz alta para ela, à beira da cama. Fulô, gentilmente, segurou o lampião próximo a mim, dando a sua contribuição. Durante toda a leitura a velha contadora de causos se manteve de olhos fechados e com um semblante sorridente. Não sei se imaginava as cenas do conto, ou se imaginava suas próprias cenas. O certo é que, ao final, ela pediu-me para colocar o livro aberto sobre seu peito e ali ficou... serenando... até adormecer.

****

Eu tive uma boa infância, ou melhor, um bom primário literário, graças, inclusive, à vizinha Voafra, contadora e personagem de suas próprias narrativas cheias de vida. Saudosa Voafra... Acho que é por isso que eu continuo gostando de ler livros impressos. De alguma forma eu leio por ela e para ela. Até hoje.

Bem, vou saltar! Os tempos de agora correm na velocidade das novas luzes, não é mesmo? 
Boa viagem!



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