sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SOBRE O MISTER JUDICIAL DO TRADUTOR

SOBRE O MISTER JUDICIAL DO TRADUTOR


Josenilton kaj Madragoa


“La lingvo profitas pli multe per la tradukado, ol per libera originala verkado. La originala verkisto ĉiam iel povos eltiri sin, li simple ne uzos malfacilajn esprimojn aŭ simple donos aliajn anstataŭ ili.” - Kabe (1931), citado em “ENCIKLOPEDIO DE ESPERANTO”.

Vistos etc.
Traduzir é sempre uma responsabilidade.
O tradutor é antes de tudo um homem de confiança do público-alvo a que se propõe servir com o seu múnus.
Ao pegar textos para traduzir para outro idioma, inicialmente, ele é um policial ou um detetive investigador das ideias que se passaram na cabeça dos autores originais, para entender por que foi escrita assim ou assado cada frase ou palavra a traduzir, que aparentemente significa uma coisa, mas que pode estar querendo dizer outra. Sua meta, ou melhor, sua responsabilidade precípua é reproduzir na outra língua, o mais fielmente possível, o sentido de cada texto que está sob sua lupa para tradução.
Aí entram, por parte do tradutor-investigador, antes mesmo de pegar na sua caneta, o estudo de contexto dentro do texto e fora do texto (ou a busca de referências endofóricas e exofóricas) que motivaram as expressões usadas no texto original, a visão ampla do jogo de coesão e coerência intra e extratextual no enfrentamento de cada frase, as ambiguidades da moda, as intertextualidades reinantes, e, se possível, a busca de saber qual foi a última refeição comida na noite do dia anterior pelo textuador traduzido. Tudo pode ser pista!
O importante é o compromisso do tradutor de dizer a verdade, ou pelo menos de dizer com a maior verdade possível para seu público-alvo na língua-meta tudo o que foi dito no texto original da língua-fonte, frase a frase, palavra a palavra, mas principalmente sentido a sentido, ainda que esta verdade seja subjetiva a ele, ou seja, que sofra inevitável contaminação ideológica resultante da sua visão de mundo, de si mesmo e do autor traduzido. O importante, minimamente, é que o tradutor se esforce sempre para aprimorar a técnica de dizer a verdade e que aja sempre com boa-fé na sua bancada de trabalho.
Esta é a responsabilidade mínima do oficial da tradução, e que ganha mais gravidade, se o público-alvo da língua-meta especialmente tiver uma expectativa de compreensão bastante diferente da do público-alvo da língua-fonte. Neste caso, exige-se um maior exercício na escolha das palavras e regras de expressão por parte do tradutor, que é, também, um intérprete, ainda que por escrito, de culturas, tradições, jargões etc.

O tradutor é também um juiz no seu ofício de entender o sentido das palavras e expressões da língua-fonte, para poder oferecer a melhor sentença-frase, para fazer a melhor justiça em cada caso concreto, cuja ata é o próprio texto traduzido para a língua-meta.
A palavra 'sentença' vem de sentir, de emitir uma opinião ou parecer baseado muito mais no sentimento do que na razão.
O juiz que busca ser servidor muito mais da Justiça do que do Direito, desapega-se da literalidade da lei objetiva, fria e racional, para, no enfrentamento de cada caso a julgar, na observância do que lhe é exposto para exame, perceber, sentir dentro desse exposto, ou tentar arrancar de dentro desse exposto, a verdade real, que nunca vem em sua inteireza perante o sensório magistratural. É necessário abstrair-se da forma, em busca do conteúdo imaginário ou imaginado, em busca da essência, cuja linha motivadora tem um caudal que antecede até mesmo o nascimento do réu, ou até mesmo extrapola toda a circunscrição ideológica em que o réu ou o juiz vive e modela seus pensamentos, sentimentos e ações. E tal circunscrição normalmente se espraia além do plano físico, podendo ter toda sua motivação próxima ou remota até mesmo no mundo interativo dos espíritos.
No caso do tradutor, que é um investigador verbal e é também um juiz no ato do seu ofício, ele tem de buscar sentir a verdade da realidade que está nas entrelinhas, e não exatamente nas linhas, do texto-réu original, mesmo que esse texto seja apenas um único monossílabo sobre uma folha de papel, ou mesmo até que o signo discursivo esteja tridimensionalmente ausente, às vezes invisível, entre uma linha e outra ou entre uma palavra e outra do texto, às vezes à espera de uma palavra ou expressão que ainda vai ser inventada, para que possa se revelar aos sentidos intelectuais.
[Se me permitem uma digressão pessoal, como tradutor português-Esperanto (e que não domina devidamente nenhuma das duas línguas), às vezes eu fico de frente para uma frase; eu e a frase; eu olhando ela e ela me olhando; eu tentando traduzi-la em nível de entendimento e em nível de palavras e ela se esquivando de todo jeito. Sim... tem frase que é esgueirosa, cheia de catimba, de parece mas não é, porque o problema é este. Muitas delas não espelham ipsis litteris a ideia perpassada na mente do autor original. Ele pensou lá uma coisa, às vezes num tempo, num espaço ou numa cultura bem distante da nossa, mas a expressou verbalmente por formas que só o leitor da língua/espaço/época/cultura dele pode compreender facilmente, embora essa coisa, como quase toda coisa, tenha seu quê de universalidade. Aí, na busca da equivalência em Esperanto e na busca do sentido universal da sentença sob tradução, às vezes eu passo meia hora ou mais, para reconstruir a frase em Esperanto e numa forma o mais universal possível, para que todo o universo esperantista global entenda, com o mesmo sentido que a frase-sentença evocou para os leitores originais. Por isso que nós comparamos o traduzir, de certa forma, ao papel de um juiz, que precisa julgar, ou melhor, precisa decidir como extrair a máxima universalidade possível de um enunciado ou sentença original e reexpressá-la também da forma mais universal possível dentro da língua universal por excelência, que é o Esperanto, que tem um público diasporizado nos entremeios de várias culturas, épocas, lugares e línguas nacionais. E os esperantistas, como universalistas, via de regra, hipoteticamente, são um público leitor multiexigente, porque são multiculturais, multitemporais, multiespaciais e multilíngues, pelo menos em nível de predisposição raciocinal, em tese. Traduzir para o Esperanto é, pois, uma multirresponsa! ☺ É um excelente exercício, pelo menos de esforço físico e neuronal. Dá bons frutos.]

Como premissa, o escrito original tem natureza jurídica de documento, e o tradutor é juramentado com sua consciência, de passar fielmente para a língua-meta, não o que foi objetivamente escrito no papel original, mas, sim, o que foi pensado na cabeça do autor original, no mínimo. Não é raro ocorrer de o tradutor expressar mais fielmente em sua tradução aquilo que o textuador original idealizou, mas que não expressou com a mesma fidelidade com suas próprias palavras. É outra responsabilidade do tradutor, não exatamente de se expressar melhor, mas de tentar ser mais claro do que o textuador original, especialmente se este for de uma época mais remota, em que os dicionários eram bem menos volumosos, ou em que não lhe era permitido dizer, pelos censores ideológicos, tudo o que sabia ou tudo o que sabia dizer.

A fidelidade ao sentido muitas vezes exige a traição à forma. E isso depende de vários fatores. Às vezes uma frase toda diferente, quer em estrutura, quer em gramática, quer em maneira de dizer, é que traduz o mais fielmente possível uma frase de um autor original. Reiterando, consideremos que traduzir não é simplesmente levar de uma língua para outra, mas é também transpor espaços, tempos e culturas.
A língua verbal é expressa em palavras, mas ela, em si, expressa toda uma gama de realidades profundas e extralinguísticas, que demandam uma sensibilidade, um sentir (uma ‘sentença’) muito mais fiel aos postulados, técnicas e recursos da semiótica verbal do que às regras da tradução meramente cartorária.
A arte da tradução evolui com o passar das gerações linguísticas, de modo que têm mais opções tradutoriais, inclusive quanto a palavras e modos de dizer, os tradutores das gerações linguísticas mais recentes. Se conhecêssemos, por exemplo, os fatos que motivaram a escrituração de todos os antigos textos sagrados, e se fôssemos traduzi-los usando abertamente (e sem vinculações ideológicas) todos os recursos expressionais, gramaticais e vocabulares das linguagens interdisciplinares mais recentes, bem possivelmente chegaríamos a textos bem diferentes e com muito mais precisão de sentido do que os textos sagrados. Estes quase sempre têm sido, no lastro dos séculos, totemizados como verdades eternas, muitas vezes em toda sua literalidade, por seus seguidores mundo e ideologias afora, em prejuízo da evolução da humanidade pela evolução dos sentidos textuais até a geração interpretacional corrente.
Voltando à vaca fria, não existe sentença absolutamente justa, já que o juiz, que é também um ser humano, e, por isso, falível na emissão de seu juízo de valor, não presenciou o fato sob julgamento. Ademais, ele mesmo, o togado, é tocado também por suas impressões subjetivas e ideologias conscientes e inconscientes que defende, sem contar que, ao invés de vendar os olhos pela neutralidade da justiça, o que seria o ideal, ele acaba não enxergando com a clareza necessária os fatos sub oculis, em razão dos resquícios de traves e argueiros que ainda embaçam a sua visão. [Ainda bem que existem os tribunais para reexame das sentenças de primeira instância, em grau de recurso, ainda que caibam em relação a estes, mesmo em se tratando do Supremo Tribunal Federal, outros recursos.]
Da mesma forma, não existe tradução absolutamente perfeita, já que o juiz-tradutor não presenciou o fato-ideia que teve o réu-autor original no momento em que cometeu a ação de registrá-lo no papel. [Daí a importância de não dar doentia importância à escrituração perfeita, nem no original nem na tradução. Lembremos do genial João Guimarães Rosa, que já na quinta edição de seu "Grande Sertão Veredas", ainda fazia correções a caneta no exemplar que recebia. A grande prosadora Clarice Lispector, ao entregar seus originais para o revisor, recomendava que, após o trabalho dele, eles seguissem direto para a editora, porque ela nem queria saber o que foi corrigido. O grande contista argentino Jorge Luís Borges, considerado por muitos o melhor do mundo no gênero, disse que "Publicamos, para não passar a vida a corrigir rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro, para livrar-se dele." Daí pode-se ilar para a seguinte premissa confortadora: toda frase já publicada sempre poderia ter sido escrita melhor, ou com mais precisão ou com mais estética ou com mais espanto, seja no original, seja na tradução. O importante, pois, é navegar na arte e compartilhar as viagens com os outros, no estado em que a nau e os mares se encontrem. Já viver o mundo escorreito, friamente objetivo, cartorário e irreprochavelmente engravatado é secundário, não é preciso. Da mesma forma, só não devemos nunca é abandonar o barco das nossas viagens escriturais, da mesma forma como não devemos também deixar de ir aos portos gramaticais e a outros navios literários em busca de manutenção e de melhorias de nossos traçados.]


Não é raro o tradutor, à guisa de querer melhorar o sentido do original ou estilizar o seu próprio texto, cometer o erro de lesa-tradução, ao incluir na língua-meta palavras que evocam sentido muitas vezes bastante afastado do sentido pretendido pelas palavras originais.
A premissa que nós defendemos, como praticantes da tradução, é que, até necessidade em contrário, deve-se sistematicamente priorizar a tradução literal, não exatamente quanto à estrutura formal do que foi expressado em palavras, mas, principalmente, quanto ao que se quis dizer originalmente com as palavras da língua-fonte. 


Não se trata de tradução ao pé da letra, nem ao pé da palavra, nem mesmo ao pé da frase, mas, sim, de tradução literal de sentidos. Captou-se o sentido de um enunciado na língua-fonte? Expresse-se-o na língua-meta, abstraindo-se das palavras e formas de dizer daquela e considerando as palavras e formas de dizer mais próprias desta, de modo a preservar o mesmo sentido na translação interlinguística.
Se para a tradução de certa palavra da língua de origem houver uma palavra na língua-meta cuja raiz seja a mesma ou bem próxima e que tenha exatamente o mesmo valor semântico da palavra original, e desde que não comprometa uma estética mínima e certa harmonia na frase, por que não usá-la? À falta, contudo, dessa correspondência biunívoca intervocabular quanto à forma e quanto ao conteúdo, que se recorra à palavra mais próxima ou até mesmo a ambages que bastem para reproduzir fielmente, ou o mais fielmente possível, a ideia original, que, muitas vezes, pode não ter um correspondente monovocabular na língua-meta.
No diligente esforço de tentar incessantemente atingir a inatingível tradução perfeita, o incansável perseguidor dos sentidos dos significantes frasais priorize, “o mais sempre possível”, as palavras, aglutinações ou formações parassintéticas mais específicas, além das locuções, topicalizações, conversões morfossintáticas (ou gramaticalizações ou ainda recategorizações sintáticas), tudo em nome da clareza, ou melhor, da clarificação do que foi dito ou querido dizer na frase da língua-fonte. [Isso tudo enquanto se fazem intermináveis leituras comparadas de grandes traduções com seus concernentes originais, frase a frase, com grifagens, retraduções, fichamentos e compilações de fórmulas e soluções encontradas pelos mestres em traduções difíceis, além do exercício diuturno da própria tradução e do refinamento incessante do estilo, sem trégua, sem feriado.]
E reiterando: a melhor tradução às vezes não é a que reproduz fielmente na língua-meta o texto da língua-fonte, mas é a que traduz, em texto da língua-meta, o que foi dito no subtexto da língua-fonte, que o mais das vezes “aparece” invisível aos olhos, camuflado em figuras de linguagem, meias palavras, volteios, hiperônimos (ou palavras-ônibus) muito generalizantes, cochilos do autor original na escolha de palavras ou expressões mais significativas, etc. Isso não deve impedir, contudo, o tradutor de buscar, ele mesmo também, ornamentar a tradução com equivalentes maneiras de dizer e figuras de linguagem da língua-meta, fazendo as escolhas que mais se aproximem da equivalência de sentido da língua-fonte, não descurando nunca, porém, da lição do escritor espiritual André Luiz, em seu seguinte enunciado, também emoldurável: "Liberte-se das frases de efeito. – A palavra postiça sufoca o pensamento." (do livro "Estude e Viva", através do médium Waldo Vieira.)

Evitem-se também os sinônimos relativos que costumam gerar dubiedades de sentido. [Para o tradutor iniciante ou que ainda não domina profunda e amplamante o vocabulário das duas línguas de trabalho, é de bom alvitre instaurar e emoldurar sobre a parede à frente a seguinte premissa básica: a próxima palavra ou expressão a traduzir é sempre um falso amigo (ou falso cognato).]
Enfim, ainda que se valha dos mais variados recursos da tradutologia, deve-se ter sempre em mira não comprometer, depois da última lima, a simplicidade do resultado final. Isso vale especialmente se o público-alvo não for especializado no assunto ou não for familiarizado com o nível de linguagem escolhido para o texto original ou para o texto derivado.
O juiz-tradutor, portanto, tem diante de si uma dupla fase de cognição, antes de proferir a sua sentença tradutorial. Ele tem de conhecer o fato-ideia e conhecer também o fato-expressão do fato-ideia.

Ante o exposto, concluímos que a comunicação tradutorial tem quatro polos, sendo dois significantes e dois significados, a saber:
O primeiro significante é a ideia original na cabeça do autor original.
O primeiro significado é a ideia escrita pelo autor original, que já é uma tradução ou decodificação em palavras da própria ideia por ele pensada, e que nem sempre espelha com fidelidade essa mesma ideia.
O terceiro polo, agora na visão do tradutor, é a ideia escrita original, que funciona como segundo significante e que induz o tradutor a um entendimento de significado-significante em sua cabeça.
E aí entra, ou melhor, sai o quarto polo, que é o escrito-significado final, que vai para o papel na máquina de escrever do tradutor.
Pode haver ruído (falha) de comunicação tanto da fonte mental do autor original para a máquina de escrever deste, quanto do papel escrito para o receptor mental do tradutor e quanto da fonte mental do tradutor para a máquina de escrever deste último.
É todo um complexo de intelecções, interpretações, hermenêuticas, exegeses, eisegeses e expectativas criadoras e recriadoras de ideias e expressões que tem de ser levado em consideração no labor tradutorial. E olhe que fizemos aqui uma abordagem perfunctória desse complexo apenas entre as pessoas do autor original e do tradutor. Imagine se estendêssemos mais linhas aqui, para trazermos ao feito discursivo e cognitivo, também, as pessoas dos leitores originais e dos leitores da tradução e suas visões de mundo, que influenciam na concepção de nova malha de significantes e significados! [Quem sabe oportunamente...]
Por ora, aguardamos embargos declaratórios que ajudem a clarear, corrigir, explicar ou ampliar o presente arrazoado, que está longe de ser uma decisão, muito menos definitiva, mas que é apenas um parecer, sem qualquer pretensão de se tornar vinculante às ideias dos honrosos leitores ou produtores textuais que se interessam pelo assunto, muito menos com pretensão de observância erga omnes, estando ele passível de reforma ad infinitum, inclusive por este próprio textuador-textuado.

Publique-se.
Cumpra-se, querendo.
Aguarde-se o decurso de prazo.

Um comentário:

ereni pereira disse...

Adorei em conhecer o seu blog. Muito bom, merecendo o meu aplauso pela dedicação do editor em levar avante o Esperanto, o idioma da fraternidade Universal. Venho me dedicando ao Esperanto e já preparando um livro que pretendo lançar futuramente, ensinando aos novos samideanos uma maneira mais prática de você aprender mais rapidamente. Criei um blog sob o titulo esperantoemfoco.blogspot.com Ele é todo em português para facilitar o iniciante. Tenho dez postagens e mais de 2300 visualizaçoes.